segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Vida Secreta de Walter Mitty, A

The Secret Life of Walter Mitty, EUA, 2013. Direção: Ben Stiller. Roteiro: Steve Conrad, com base no conto de James Thurber. Elenco: Ben Stiller, Kristen Wiig, Sean Penn, Shirley MacLaine, Adam Scott. Duração: 114 min. Lançamento no Brasil: 20 de dezembro de 2013, nos cinemas.

Em seus vários objetivos, a sétima Arte é palco para reflexão. Refletir seu tempo e gerar reflexão no espectador, seja ela sobre o que for. Ben Stiller, enquanto cineasta, tem este segundo objetivo como o grande fôlego para sua nova obra, A Vida Secreta de Walter Mitty.

Baseado num conto clássico de James Thurber e reimaginação de um longa de 1947, aqui, somos convidados a acompanhar a jornada de Walter Mitty (Ben Stiller, de Roubo nas Alturas), um homem cuja vida está um tanto frustrante. Trabalhando há 16 anos na sessão de negativos da revista Life, agora prestes a fechar para ganhar novas edições apenas online, ele não tem grandes motivações fora de seu emprego, não tem coragem de falar com a mulher por quem se interessa, Cheryl (Kristen Wiig, da série Saturday Night Live) e prefere manter-se calado quando é ofendido por alguém, além de passar boa parte de seu tempo sonhando enquanto deveria estar fazendo mais. Em mais um dia de serviço, o rapaz acaba descobrindo, em seu departamento, o sumiço do negativo que estampará a capa da última edição impressa da revista, enviada pelo renomado - e aparentemente nômade - fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn, de Caça aos Gangsteres), e que, caso este não seja encontrado, ocasionará sua demissão; mas sequer há conhecimento do paradeiro de Sean, para buscar a fotografia com ele, o que combate as esperanças. Mas especialmente graças à coragem finalmente tê-lo atingido e Walter agora estar desenvolvendo uma relação de amizade com Cheryl, ele sente-se motivado a fazer o que for preciso para encontrar o fotógrafo, indo atrás de pistas que o levam à Groenlândia, onde viverá sua primeira experiência realmente memorável.

Cada pequeno sonho nos motiva a seguir em frente por nossos objetivos, e espanta-me como alguém de sonhos tão grandiosos aja tão pouco, mas este homem imprevisivelmente previsível é Walter, satisfeito com a monotoneidade atingida por sua vida, cujoso sonhos são apenas ilusões. Mas se há algo mais que nos motiva a lutar pelo que desejamos, este algo é o amor. Acima de tudo, A Vida Secreta de Walter Mitty trata-se de uma história de amor. Não, não temos uma trama motivada a narrar a conquista romântica de seu protagonista, mas sim das novas motivações e esperanças provocadas por um romance, aflorador e refrescante para o coração daquele homem desmotivado e acomodado. Ás vezes, um choque de esperança faz-se necessário para que deixemos as ilusões um pouco de lado, assim dedicando-nos a agir, verdadeiramente.

Claro, a eficácia de suas mensagens positivas não livra a produção de determinados erros, concentrados especialmente no modo como a abordagem dos sonhos do personagem é feita. Durante o primeiro ato, temos um estabelecimento do exagero de Walter em sonhar, durante todos os momentos e situações, com isto esquecendo-se por muitas vezes da realidade, mas o roteiro insere um excesso de sequências para representar isto - algumas, como aquela em que ele briga com o chefe e a cidade torna-se um de vídeo game ou a brincadeira com Benjamin Button, por exemplo, extrapolam mesmo o surrealismo proposto -, além da direção de fotografia, assinada por Stuart Dryburgh (de Não Sei Como Ela Consegue), não preocupar-se em estabelecer uma mudança em seus tons para diferenciar a realidade dos sonhos, o que inicialmente poderá causar estranhamento no espectador. Este ato inicial, por conta disto, acaba tornando-se um pouco problemático, mas depois dá espaço à superação da película.

Existem filmes cuja abordagem reflexiva junto ao espectador reside em criar um clima pesado, para incomodá-lo, chocá-lo, e assim manter-se em sua mente para gerar as reflexões necessárias - Amor e Os Suspeitos são dois exemplos recentes. Outros, como A Vida Secreta de Walter Mitty, contam com um clima agradável, alto-astral, tornando-se aconchegante, de certa forma, para que o espectador envolva-se com suas mensagens e aplique-as às próprias experiências vividas. A missão foi cumprida. Está certo, em determinados momentos, a falta de sutileza no trabalho de Stiller como diretor por vezes exagera na expositividade em passar suas mensagens - o público não precisa ler escritos numa pista por onde o avião de Mitty passa para compreendê-las, por exemplo -, aproximando-se perigosamente do estilo de um livro de auto-ajuda que escancara-as para seus leitores. Ainda assim, o trabalho consegue fascinar, desde o minimalismo na interpretação que Stiller confere ao seu protagonista - comprovando seu amadurecimento como ator -, tornando o personagem ainda mais complexo e interessante; passando pelas determinadas inserções de surrealismo, que após o estranhamento inicial, tornam-se sempre interessantes e divertidas, e finalizando no deleite visual provocado pelas locações escolhidas pela produção, que encaixam-se perfeitamente na criação da abordagem reflexiva procurada pela película, crescendo ainda através das escolhas da fotografia, predominante e eficientemente utilizando cores frias.

Os méritos do longa ainda atinge sua dosagem perfeita entre o humor - sutil - e o drama - jamais excessivamente denso -, aplicando-se nesta jornada de conhecimento pessoal da melhor forma possível e diferindo-se do que poderia ser erroneamente previsto para uma obra assinada por Ben Stiller, comprovadamente mais maduro enquanto cineasta, por mais que ainda cometa certos erros. A moral da "importância de ser feliz", nos tempos atuais, está constantemente relacionada aos falhos argumentos burgueses, na busca por ignorar os problemas sociais que ocorrem à sua volta e muitas vezes em sua responsabilidade com a desculpa da felicidade ser a única coisa realmente importante. Mas A Vida Secreta de Walter Mitty, ainda que conte com certas concessões neste sentido - o personagem-título utiliza-se de seu poder aquisitivo para realizar sua jornada, por menos que isto seja mencionado -, também trata-se do desapego da necessidade de manter-se completamente centrado num trabalho que não o satisfaz e dos bens materiais para realizar esta viagem - repare como ele não leva roupas ou outros bens o local, ainda que fosse necessário -, onde localiza-se realmente a beleza do filme - ganhando ainda pontos por fugir do lugar-comum, onde provavelmente inspirações religiosas seriam atribuídas às novas atitudes do personagem. Motivado pelo amor, pela necessidade de agir e motivado por si próprio, como Sean O'Connell comprova para Walter. Em sua viagem, ele não explorou as belezas encontradas na Groenlândia, ou seja lá mais onde for, mas explorou a si mesmo, suas capacidades e seus ideais. E nos entregou uma experiência absolutamente agradável e bela.

A mensagem passada para o espectador será subjetiva, estando diretamente relacionada com experiências passadas e atuais vividas por cada um, para assim gerar as inspirações buscadas - comigo funcionou muito bem, por exemplo. Se um choque de esperança fora necessário para Walter Mitty agir e ir atrás de seus objetivos, muitas vezes uma obra artística como A Vida Secreta de Walter Mitty entrega o necessário para mexer com o coração do espectador e levá-lo a fazer o mesmo, ainda que em menores proporções. Sendo assim, a missão já estará cumprida.

[Avaliação Final: ***¹/2]


Até a próxima.

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