domingo, 29 de setembro de 2013

Família do Bagulho

Família do Bagulho [We're The Millers, EUA, 2013. Direção: Rawson Marshall Thurber]
Pela segunda semana seguida, uma família disfuncional e politicamente incorreta tentando aderir aos hábitos mais tradicionais chega aos cinemas brasileiros. Se na semana passada, uma família verdadeira protagonizada o surpreendente A Família, nesta semana, uma família forjada intitula este Família do Bagulho, que está bem longe de surpresas, algo que não anula seus méritos.

Nosso protagonista é David (Jason Sudeikis), um homem à beira de seus quarenta anos que vive sem muitos compromissos e sustenta-se como um traficante pequeno, que vende drogas para conhecidos e vizinhos e é chefiado por Brad (Ed Helms, caricato), um criminoso bem maior. Quando David acaba tendo seu apartamento roubado após envolver-se numa briga com alguns jovens, ele perde todo o dinheiro dos negócios e as drogas que mantinha no local, e acaba recebendo de seu chefe uma dura missão para quitar as dívidas: ir ao México buscar uma determinada quantia de maconha com outro traficante e voltar aos Estados Unidos - por terra -, sem levantar suspeitas da polícia a respeito do que estava carregando ao atravessar a fronteira, por sua conta e risco. Sem enxergar outra opção, o traficante acaba topando o trabalho, mas agora terá que pensar numa estratégia para burlar a rígida vigilância americana, já que sua aparência não é das mais favoráveis para fazê-lo. 

Com isto se dá o conflito que move a trama, já que sua única opção para realizar o serviço será fingir ter uma família e levá-los nesta viagem, e as únicas pessoas que ele pensará em chamar para entrar em seu esquema e formarem sua família são sua vizinha Rose (Jennifer Aniston), uma stripper, seu vizinho Kenny (Will Poulter), um garoto sem muitas experiências vividas, e Casey (Emma Roberts), uma jovem delinquente que fugiu de casa. Basicamente, os três escolhidos - com a promessa de remuneração - são possivelmente as pessoas mais inadequadas para formarem uma família tradicional - juntamente com o próprio David -, mas ainda assim, são os únicos que topariam realizar algo assim. A partir deste ponto, os quatro partirão num trailer até o México e de volta, enfrentando diversas dificuldades no percurso - que variam desde um traficante os perseguindo até uma outra família que insiste em tê-los como amigos.

Infelizmente, a partir deste ponto também já torna-se possível prever o que ocorrerá entre as personagens principais apresentadas pelo roteiro inexplicavelmente escrito por oito mãos, sendo estas as de Bob Fisher, Steve Faber, Sean Anders e John Morris - que ainda não realizaram nada de excepcional em suas carreiras -, basicamente constituindo naquela dinâmica inicial de conflitos e ofensas trocadas entre personalidades extremas e agressivas, até que com o tempo e a jornada vivenciada no percurso, estas personalidades vão se conhecendo melhor, enfrentando as dificuldades juntos e acabam se importando, gostando e identificando-se com os problemas um do outro. A comédia se apropria da propícia estrutura de um road movie para isto, que tanto é habitual num longa que apresenta uma jornada de mudanças entre suas personagens quanto para justificar exageros em suas conveniências - algo parecido foi utilizado ainda neste ano em Uma Ladra Sem Limites. No caso de Família do Bagulho, o clima de road movie contrasta ao trazer algumas das grandes qualidades do filme e também alguns de seus maiores defeitos.

É interessante a ideia de presenciar pessoas como as abordadas aqui sendo colocadas para interpretar o Sonho Americano, de certa forma, ao viverem a família tradicional, e se observá-los tendo que personificar verdadeiros bobalhões para adequar-se a isto pode ser visto como satiricamente divertido, é uma pena que o roteiro não tenha a competência necessária para desenvolver um comentário crítico mais profundo a respeito desta mesma questão e suas necessidades superficiais em manter as aparências que sigam os moldes mais tradicionais do costume capitalista - que é justamente o que os protagonistas estão fazendo, e este será o grande conflito particular de cada um. Pensando melhor, apenas de Rose, que tenta provar que poderia ser uma "mãe digna" apesar de sua profissão, e Kenny, que busca aparentar um amadurecimento com o qual ainda não conta. O longa consegue, porém, ter a competência de atribuir força a suas personagens, em especial a Rose, que ganha ainda mais com o melhor trabalho do elenco, o de Jennifer Aniston - que, também com relação a sua beleza, parece apenas melhorar com o tempo. O personagem de Jason Sudeikis mostra-se durante toda a projeção como um homem inseguro em relação ao controle de seu plano, mas com uma personalidade que abusa da autoconfiança, sarcasmo e respostas agressivas para demonstrar ainda estar no controle de todas as situações que vivencia. Will Poulter e Emma Roberts são jovens atores que, aqui, pouco demonstram além da apatia, mas é Nick Offerman com seu escoteiro-aos-quarenta quem rouba todas as cenas em que surge, embora o desfecho dado ao seu personagem esteja bem aquém dos esforços do ator.

Mas este desfecho representa bem o espírito de um longa que, já na maturidade da projeção, acabou rendendo-se à algumas conveniências desnecessárias - espero que alguém consiga achar explicações para que aqueles quatro continuem tratando-se como uma família verdadeira mesmo quando estão sozinhos, ou a necessidade do roteiro em elaborar que havia outro traficante igualzinho a David se dirigindo à receber as encomendas de maconha no local combinado, e menos ainda a saída que o roteiro nos dá para a polícia ter deixado-os passar de volta aos EUA. Ainda assim, não posso ignorar os méritos de uma obra esperta o bastante para abraçar o humor politicamente incorreto - sem exageros gigantes -, que rende momentos divertidos o bastante para tornar a produção eficiente como um divertimento escapista para os espectadores, desde os mais atentos às diversas referências pop que surgem especialmente nas falas de David até os maiores fãs do humor físico - que, bem ou mal, ainda é capaz de gerar algumas risadas -, mas principalmente àqueles que se concentrarem nas boas interpretações que nos são entregues, cujos destaques ficam por conta das sequências em que a família Miller interage com a família Fitzgerald, e o desconforto que nos é passado pelos protagonistas na tentativa de manter as aparências sem dúvida é bastante cômico - também deixo o destaque para a cena em que Kenny beija pela primeira vez praticando com sua irmã e sua mãe falsas. Se não contasse com a força de seu elenco, Família do Bagulho provavelmente passaria desapercebido, e esta afirmação infelizmente vem sendo uma constante na maioria das comédias americanas lançadas durante este ano.

Mas o grande problema do longa dirigido por Rawson Marshall Thurber - que adota uma abordagem bastante tradicional na função, diga-se de passagem -, inclusive como divertimento escapista, é sua duração, grande demais para ser preenchida com equilíbrio por momentos cômicos. Mas como o crítico Márcio Sallem afirmou numa conversa que tivemos pouco antes de eu finalizar este texto - e espero que ele não se incomode de tê-la citado aqui - Hollywood recentemente tornou-se uma especialista em trazer produções mais longas do que estas deveriam ser. Infelizmente, para o cinéfilo.

[Avaliação final: **¹/2]

Até a próxima.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Família

Família, A [Malavita, EUA/França, 2013. Direção: Luc Besson]
Surpresa agradável, A Família surgiu nos cinemas brasileiros sem muito alarde, apesar dos nomes envolvidos. Aparentava ser um projeto paralelo para todos os envolvidos na produção, e talvez isto tenha tornado-o ainda mais especial, tanto para os próprios tanto para o pequeno público que deve conferi-lo.

A trama se inicia acompanhando a chegada de uma família, tipicamente ítalo-americana, à uma nova casa, localizada na Normandia, interior da França. No início, só o que podemos concluir é isto, mas algumas intrigas são levantadas a partir de diálogos entre a família, que citam por algumas vezes o fato de este ser apenas mais um lugar entre os vários que já moraram e não por muito devem ficar. Pouco depois, entenderemos que eles estão vivendo no local como parte do programa de proteção a testemunhas, já que anos atrás tinham envolvimento com a máfia e foram os responsáveis por delatar um importante gângster para a polícia. O problema é que hábitos são difíceis de se mudar, e uma família que tem máfia em seus instintos dificilmente conseguirá perdê-la.

Em primeiro lugar, é necessário considerar que a produção não busca construir um filme sério de gangsteres, e quem busca isto certamente sofrerá uma decepção. Por isto mesmo, soa como um projeto paralelo para quem está envolvido, e foi justamente o que deu a aura da produção, que por não exigir tanto em termos dramáticos e sérios, acabou deixando todos os atores e o diretor bastante a vontade para realizar o trabalho. A Família brinca com o sub-gênero, brinca com questões históricas e culturais, com suas personagens e com a violência. Mas não pense que é uma comédia pura, pois o filme ainda reserva pitadas de tensão e dramaticidade muito bem encaixadas, que elevam sua profundidade para muito além de uma comédia despretensiosa, com a exploração de camadas que são o que o torna tão surpreendente.

A relação entre a família Blake - codinome que adotam para esta etapa do programa - torna-se conturbada pela necessidade de manter o cinismo para suas relações exteriores. Para cada nova cidade em que moram, eles tem que passar por uma longa adaptação cheia de mentiras, já que não podem cogitar revelar a verdade de seu passado para ninguém mais, por isto, é fácil se colocar no lugar deles e se identificar com seus problemas. Desde os primeiros dias nesta nova cidade, todos já reconhecem - como citado -, que não terão a oportunidade de passar muito tempo ali, mas cada um seguirá seu dia. O problema é que a adaptação para cada um deles torna-se mais difícil por esta loucura da situação em que vivem, e a questão dos hábitos de uma família mafiosa se encaixa perfeitamente nisto, já que esta realidade da família torna-os mais acostumados com a presença da violência para resolver os seus problemas e crises. O filho, Warren (John D'Leo), inspira-se no pai e organiza um sistema praticamente mafioso naturalmente em sua escola - negociando de lições de casa até cigarros -, a filha, Belle (Dianna Agron), resolve seus problemas com o assédio de garotos com a violência - no caso, uma raquete -, enquanto a mãe, Maggie (Michelle Pfeiffer), resolve problemas que qualquer dona de casa teria com, bem... fogo. O pai, Fred, ou Giovanni Manzoni (Robert De Niro), parece ter se acostumado a controlar a raiva e levar sua rotina da forma mais tradicional possível - para depois, vir a descontar num encanador. Há uma brincadeira bastante sutil com a questão do Sonho Americano, já que na família Blake, reside a aparência de uma família tradicional americana, mas quando nos aprofundamos mais em seus costumes, conhecemos pessoas que ignoram grande parte dos princípios morais e são adeptas do cinismo, e ainda por cima temos adolescentes que estão bem longe de terem os sonhos e objetivos típicos de jovens estereotipados americanos.

O humor gerado justamente com a questão da chegada dos americanos não para por aí, uma vez que esta também gera uma referência histórica, pois a Normandia também representou, durante a Segunda Guerra Mundial, o palco para a chegada dos americanos para derrotar os nazistas que mantinham-se no território francês. Com isto, a visão que os habitantes da região têm dos americanos tem uma linhagem quase heroica - o que justifica o fato de uma festa na casa dos Blake ter atraído a vizinhança como um grande evento -, e ver esta família americana deturpando sua visão do país é mais um aspecto interessante do filme. Mas o que explora a nuance mais interessante de A Família também é responsável por gerar um humor negro na produção: a tamanha naturalidade com que as personagens principais lidam com a violência para resolver qualquer pequeno problema. Além de gerar os momentos mais divertidos do filme - em especial, os acessos de raiva que povoam os pensamentos, e por algumas vezes a realidade, do pai da família -, este ponto é capaz de atingir uma camada de estudo interessante sobre o comportamento humano, em sua necessidade dos instintos mais naturais, a violência, que é explorado da forma mais cotidiana possível. 

Embora seja hábil e inteligente ao abranger todas estas questões, e especialmente em não subestimar seu espectador - não utiliza, por exemplo, a bobeira de uma narração em off explicativa para narrar o passado dos protagonistas, algo que é explicado conforme o desenvolvimento; e também não torna expositiva a abordagem da questão histórica - o roteiro de Luc Besson e Michael Caleo não está completamente livre de falhas, que variam desde algumas mais simples como o esquecimento de uma sub-trama relacionada aos problemas que Warren está tendo na escola ou outras gritantes como a conveniência que leva os mafiosos a descobrirem a localização da família Manzoni (o nome apropriado, no caso) - pois muita suspensão de descrença é necessária para aceitar de bom grado que uma piada em inglês escrita por Warren no jornal da escola fosse alcançar a prisão americana onde o gângster está preso e levá-lo a se lembrar que ele fora responsável por contá-la, anos atrás, numa reunião onde a família esteve presente -, algo que, por sorte, consegue ser revelado por uma boa execução da ação do confronto que envolve estes mafiosos e os protagonistas no terceiro ato, quando eles chegam à Normandia. A fotografia é bastante eficiente ao evocar as cores de clássicos filmes de máfia e ainda representar competentemente os contrastes entre a casa dos Blake e os outros locais da cidade - com a utilização das cores escuras dentro da casa para ilustrar a tensão ali passada e o contraste entre seu ambiente e o exterior da cidade, em cores mais claras. O trabalho de Luc Besson, no entanto, atinge a regularidade dentro da proposta descontraída do projeto, logo, nem compromete - realizando um trabalho eficaz na variação entre o bom-humor e a tensão -, nem almeja maiores pretensões - o diretor não efetua planos muito ousados e ainda dispensa o bem-vindo uso de um contra-plongée na sequência que mostra a chegada dos gangsteres à cidade.

As atuações individuais parecem compreender perfeitamente a proposta de cada personagem que interpretam, já que as personagens de A Família, embora tenham um aprofundamento dramático particular, também representam as brincadeiras que o longa faz com estereótipos do Cinema, em especial no personagem de Robert De Niro, que apresenta-se muito a vontade vivendo a caricatura da persona do mafioso que muitas vezes viveu na sétima Arte - como é bom e cada vez mais raro ver o ator numa boa performance -, na interessante Maggie Blake de Michelle Pfeiffer numa interpretação que, por algum motivo, me remeteu àquela outra mãe de uma família extravagante vivida pela atriz em Sombras da Noite. Enquanto isto, Tommy Lee Jones ganha a cena com mais um policial mal-humorado quando interage com De Niro durante o debate cinematográfico em que sua raiva contida contrasta divertidamente com o comportamento do personagem principal que parece finalmente estar se soltando - e botando tudo a perder -, e os adolescentes vividos por Dianna Agron e John D'Leo ganham seus merecidos momentos de destaque na trama. Todos realmente parecem muito à vontade em cena.

É interessante como podemos traçar um paralelo entre a família do título e a água da torneira de sua casa que insiste em se manter marrom, já que quando esta torna-se finalmente cristalina - e eles finalmente se adaptam -, será novamente abandonada - e para uma nova cidade os Blake (que ainda se despirão do sobrenome) partirão. Para onde aqueles quatro estariam indo na viagem que encerra a fita? Provavelmente, para uma nova experiência de adaptação. E nos resta esperar que, desta vez, eles tenham mais tempo para utilizar sua água cristalina.

P.S.: Teria sido a divertidíssima sequência da projeção de Os Bons Companheiros uma dica do produtor deste filme aqui e diretor do referenciado, Martin Scorsese?

[Avaliação final: ****]

Até a próxima.

domingo, 22 de setembro de 2013

Os Amantes Passageiros

Amantes Passageiros, Os [Los Amantes Pasajeros, Espanha, 2013. Direção: Pedro Almodóvar]

O novo trabalho de Pedro Almodóvar dividiu opiniões, mas, como de hábito, encontrou seu público. A comédia passa-se quase inteiramente dentro de um avião e é protagonizada por três comissários de bordo vividos por Javier Cámara, Carlos Areces e Raúl Arévalo, basicamente contando a história de um voo que está passando por sérios problemas técnicos, e com o isolamento com algumas poucas pessoas e a tensão gerada pela situação, os passageiros e tripulantes acabam sendo levados a revelar-se com diversos de seus segredos - que vão desde a homossexualidade de alguém até a revelação de que outro é um matador de aluguel -, gerando uma situação bastante confusa. Confusa e interessante, uma vez que poderia traçar um estudo sobre como o ser humano, em diversos casos, tem uma maior facilidade de confidenciar-se com um desconhecido ao passar algumas horas com este do que com um grande amigo, assim seria um baita estudo de comportamento. Mas não é bem o que ocorre.

Infelizmente, eu acabei ficando do lado dos que não gostaram do filme, que além de levar Almodóvar de volta às origens de sua carreira com o gênero de seu novo projeto - uma comédia, saindo dos dramas que vinha fazendo -, também parece transmiti-lo de volta aos tempos de um cineasta amador, que não decide em Os Amantes Passageiros se quer adotar o clima de uma comédia com toques dramáticos e sérios, a partir das mais melancólicas revelações de seus passageiros, ou se deseja utilizar o surrealismo presente para produzir uma comédia escrachada. O filme acaba transitando entre as duas abordagens e não se efetivando em nenhuma delas, já que constrói dramas artificiais e pouco profundos, e também pouco diverte para uma comédia escrachada. Com exceção de alguns poucos momentos de um humor mais sádico e sutil, a produção espanhola acaba surgindo como uma obra ousada, mas também bastante aborrecida, e que certamente será esquecida tão rápido quanto aqueles passageiros deixaram o avião ao notá-lo pousando. Poderá valer a pena para os fãs incondicionais do cineasta, que gostarão de vê-lo voltando às origens. Como obra individual, porém, Os Amantes Passageiros não funciona.

[Avaliação final: /2]

Até a próxima.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Distrito 9

Deixa eu avisar uma coisa antes: Ali embaixo - e em cima também - você vai ver um marcador, um tal de "aquecimento", que vai servir pra separar posts como este aqui, que você está lendo, em que o texto do post tenha, de algum modo, uma relação direta com um lançamento nos cinemas brasileiros nos próximos dias. Pode ser falando sobre um filme específico, apresentando alguma franquia ou seja lá o que for, mas tem que ter algum elemento que o ligue diretamente ao lançamento, não somente uma pequena coisa que os interligue. Entenderam? Bom, então vamos ver como é que funciona.



Distrito 9 [District 9, 2009, África do Sul/EUA/Nova Zelândia/Canadá. Direção: Neill Blomkamp]

Hoje mesmo, está chegando aos cinemas brasileiros Elysium, ficção científica com Matt Damon, Jodie Foster e Wagner Moura. Este filme também é dirigido pelo Neill Blomkamp, que quatro anos atrás - apadrinhado pelo Peter Jackson - trouxe uma ficção de orçamento relativamente baixo, mas com grande sucesso de público e crítica, e, que dizem, ter semelhanças com este seu novo projeto além de simplesmente o nome do diretor nos créditos. Este sucesso se chama Distrito 9.

Como devo ver o tal Elysium nos próximos dias, decidi conferir este trabalho e posso dizer que os elogios não estavam errados. Distrito 9 tem um conceito fantástico, mas o desenvolvimento torna-o ainda mais grandioso. Uma nave extraterrestre pousou na África do Sul, quando não pode mais seguir em sua viagem, e o governo do país, sofrendo a pressão internacional, decidiu criar um complexo habitacional supervisionado para manter as criaturas e proteger a população local da possível ameaça. O problema é que o complexo, precário, torna-se um caos, já que assim como os seres humanos, os alienígenas também tem um sistema desorganizado de divisão social. O déficit ainda é maior pelo fato de o país não estar preparado para receber os seres - como qualquer nação estaria com uma situação destas -, e acaba tratando-os com preconceito e crueldade.

A produção de Neill Blomkamp traz seriedade e aprofunda-se em tudo o que a ficção científica oferece a um bom cineasta para trabalhar com o gênero: Abordar questões e gerar reflexões a respeito nossa realidade, nossa história e atualidade, através dos elementos fantásticos. O modo como a população e - especialmente - o governo recebem os "visitantes" representa uma baita crítica no preconceito que está instaurado em nossa humanidade, a negar inicialmente tudo o que contradiz nossos hábitos. A crítica funciona para qualquer região e grupo social - não é a toa que o filme levou tanta gente aos cinemas, no mundo todo -, e pode fazer todo mundo refletir sobre o modo como recebemos imigrantes, pessoas de opção sexual diferente, entre outros casos. Os questionamentos também funcionam com a questão do governo e das grandes corporações. A entrada do estado e da MNU (MultiNacional Unida) no complexo tem uma retratação que deixa bastante claro os seus interesses. Não são apenas em retirar os alienígenas de lá para proteger a população, mas também para resgatar o armamento destes e poder trazer melhores recursos para suas forças armadas. Ainda assim, o filme não precisa definir em momento algum se os humanos ou os alienígenas são "heróis" ou "vilões", você pode perceber que ambos tem seus problemas, ninguém é o bonzinho perfeito ou o puro cruel, embora a grande crueldade seja cometida pelos humanos.

Com toda esta profundidade de crítica e interpretação, a trama principal pode até ficar em segundo plano por alguns momentos, mas continua interessante. No caso, o que ocorre é que o chefe da operação da empresa, Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley, em interpretação fabulosa), acaba sendo atingido por um material genético e entrando num processo de - uma assustadora - transformação para uma criatura alienígena. A coisa toda vira de lado e ele enxerga a crueldade de melhor forma, quando passa a ser perseguido pelo governo e por sua própria empresa para tornar-se, basicamente, uma experiência. Mas não pense que Distrito 9 fica só na questão mais profunda e inteligente sem saber muito bem como divertir, pois o longa ainda reserva ótimas sequências de ação - auxiliadas pela trilha sonora, clichê mas eficiente -, alguns momentos extremamente delicados e emocionantes, e efeitos visuais de verossimilhança impressionante - ainda mais pelo orçamento, que não é alto, mas com o bom auxílio da fotografia, que adota um estilo quase documental. Uma ficção científica em sua plenitude.

[Avaliação final: ****]

Até a próxima.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Analisando as bilheterias - 13 de setembro

Numa semana com estreias e movimentações mais interessantes nas bilheterias nacionais do que nas americanas, chegamos a mais uma análise dos números de público do final de semana de 13 a 15 de setembro. Vejam só:

Bilheterias americanas - Final de semana de 13 a 15 de setembro:
  • Sobrenatural - Parte 2 seguiu a onda dos terrores baratos e realistas que estão fazendo sucesso nos últimos anos e liderou o período. O impressionante foi que, nisto, o filme já fez impressionantes oito vezes o próprio orçamento, somente no território de produção. Com 40 milhões arrecadados, liderou tranquilamente.
  • Esta foi mais uma semana em que as outras grandes produções em cartaz tiveram a oportunidade de se assegurar melhor pela falta de lançamentos arrasa-quarteirões. Elysium (9º) se aproxima dos 90 milhões no país e Família do Bagulho (5º) só se consagra ainda mais como a comédia de maior sucesso do ano e atinge os 130 milhões.
  • Riddick 3 também aproveitou esta situação e até ganhou salas na busca por um hit, mas a ficção científica não vai sequer melhor que seu antecessor, ainda que não seja um fracasso.
Bilheterias brasileiros - Final de semana de 13 a 15 de setembro:
  • Assim como ocorreu nas terras norte-americanas, um terror também soube utilizar do marketing da sexta-feira 13 e liderou o final de semana no Brasil, mas foi Invocação do Mal. Tendo passado por 391 salas, o excelente terror se deu muito bem na média de público, e se deu melhor que o segundo colocado, Aviões, que chegou em bem mais salas do que o longa de James Wan (638) e ainda teve a ajuda das cópias 3D, mas as férias já passaram e a animação não teve fôlego para liderar.
  • Como havíamos dito na previsão da semana passada, O Ataque não teve a liderança diretamente tomada por seus competidores de mesmo público que estrearam - Dose Dupla (6º, em 219 salas) e Rush (5º, em 211) -, mas teve grande influência da chegada destas para a competição. Ainda assim, fica num seguro terceiro lugar.
  • A partir daí, e muito em decorrência do grande número de estreias, tivemos quedas acentuadas, como as de Percy Jackson e o Mar de Monstros (8º) que perdeu seis posições - a competição direta com Aviões tem grande responsabilidade nisto - e One Direction: This is Us - que seguiu o fluxo de filmes de bandas e shows, que costumam ter uma boa estreia, mas logo sumirem do mapa.
  • A próxima sexta-feira traz três estreias grandes, mas cada uma com um público bastante particular, portanto acabam fugindo das competições entre si. As Bem Armadas é uma comédia com mais foco no público feminino, Elysium é uma ficção científica e A Família uma comédia de máfia com um alvo apenas no público adulto. Não acredito que nenhuma tire o líder de sua posição, mas as duas primeiras estreias citadas deverão ameaçar bastantes as duas posições seguintes a ele, além de deverem provocar o sumiço completo de Círculo de Fogo das salas e ainda diminuir a presença de Gente Grande 2. A Família deve roubar um pouco do público de Dose Dupla, pelo apelo parecido, mas não deve ir além do alcance do top 10.


Até a próxima.